Reforma do ensino, nem que seja à força

Editado em  16 de fevereiro de 1969  Nº 61

No ano passado foi dado um primeiro passo, e bem importante, por sinal, em direção à reformado ensino primário. Pelo menos foi reestruturado o programa e o currículo. Quanto à necessidade dessa medida. Quanto à validez e importância muito já foi falado. E acho que quase todos concordam comigo. É claro que existe ainda muita gente que se atém o programas ultrapassados e ainda existe o raciocínio de que “se sempre funcionou, porque é que agora teremos que mudar”?

Mas acho também que a porcentagem do que pensam assim é bastante pequena, felizmente. Pois bem. Saiu a reforma. Agora resta perguntar – ela já está funcionando? Aí é que a coisa pega. Entre as próprias professoras que estão a favor da medida há a propensão para desculpar aquelas que não são capazes de seguir as novas normas. E o argumento é o que elas não foram preparadas, já estão acostumadas a seguir uma certa orientação antiga. Que a reforma deve partir das recém-reformadas, portanto a reforma deve introduzida na Escola Normal.

A coisa até certo ponto é logica. Mas na realidade tudo esta contra esse ponto de vista. Em primeiro lugar, essa reforma, que saiu só agora no papel, ficará sempre se formos esperar que as professoras que trabalham atualmente sejam substituídas pelas  que serão formadas. A não ser  que todas as que não receberam as novas instruções sejam trocadas pelas que vão saindo da escola. E isso impossível. Outro ponto a considerar é que a reforma só saiu agora, mas a realidade a exigia há muito tempo. Tanto assim que ouvimos falar em ‘escola nova’, ou outras expressões semelhantes e equivalentes, há mais de vinte anos.

Estamos atrasados. E nada se fez, embora muitas professoras tenham sido formadas  dentro desses princípios que nortearam a reforma agora.

E por que não puseram elas em pratica esse novo procedimento? Por que caíram, tão facilmente, na rotina daquelas que estavam erradas? Realmente, e preciso uma medida drástica por parte da Secretaria da Educação, exigindo de todos, sem exceção, e sem levar em conta seu tempo de serviço, a aplicação do novo programa e currículo.

Sei de diretores de grupos escolares que acham que deixar de fazer entre o primeiro e o segundo ano é um absurdo, porque deixará de haver a seleção e assim os alunos fracos passarão  para diante. Isso mostra que eles não entenderam nada. Pois se uma das ideias é justamente essa: acabar com a tal seleção, com a divisão entre alunos fortes e fracos! Esse é um problema que a professora deve resolver sozinha, por sua conta.

Ela deve fazer de tal forma que não existam alunos fracos. Se existirem, ela procurar saber a razão. Só haverá uma desculpa: alunos retardados. Então ela deverá encaminhá-los à classes especializadas, se for o caso. Senão, deverá superar os problemas. Seria falta de alimentação? falta de base? Problema de vista? Instabilidade emocional? Enfim procurar dar um pouco mais de esforço e resolver esse problema. Ser professora  não é só ensinar a ler, escrever, e dar algumas poucas noções de geografia e história do Brasil. É ter noções de comportamento da criança, conhecer seus problemas em casa, conhecer seus pais, suas condições de vida. É saber encaminhá-los dar-lhes orientações. É parar um pouco para pensar sobre o que vai fazer na escola no dia seguinte, como irá se dirigir a seus alunos.

A.N.P.

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