Estudantes fazem passeada

01 de dezembro de 1968   Nº. 21

Devido ao lamentável acontecimento ocorrido nesta cidade no dia 27 de novembro, a reportagem do “O CORREIO” saiu em campo, buscando as versões do fato.

Versão dos Estudantes.

Revoltados contra o que classificam de “atitude abusiva e revoltante da diretoria do Clube Santarritense proibindo um baile de formatura dos alunos da Escola Técnica de Eletrônica para impedir que os alunos negros dele participassem” os alunos da ETE e do Instituto Nacional de Telecomunicações atenderam convocação de seus Diretórios para  uma passeata de protesto em que  demonstrariam seu repúdio àquela decisão.

Os manifestantes desfilaram pelas principais artérias da cidade, ora em silêncio, ora gritando lemas como “racistas vão embora”.

Diante da residência do presidente do Clube Santarritense os manifestantes fizeram um minuto de silêncio.

Várias cartazes foram conduzidos pelos estudantes. Concentrados na praça , os estudantes ouviram a palavra de vários líderes estudantís.

O presidente do Diretório Academico da Escola de Engenharia de Itajubá, estudante Jaime Petit, disse que viemos até aqui trazer a nossa solidariedade concreta à luta dos estudantes e do povo de Santa Rita do Sapucaí.”

Seria muito fácil para nós – continuou – dizer apenas por carta do nosso apoio, porém é preciso que o povo e os colegas saibam que os universitários de Itajubá se identificam com eles nessa luta contra o atraso”.

“É preciso advertir, que não se fique só nisso. Que nos detenhamos somente quando tivermos a vitória completa.”

O estudante Gerson Melo falou que “é do povo esta manifestação de hoje. Nossa luta transcende os estreitos limites de um protesto apenas contra uma diretoria retrógrada de um clube qualquer; ela vai mais além, ela é contra aquela minoria oligárquica que discrimina o próprio povo de Santa Rita e quer usufruir ela só, de todos os benefícios de uma vida em coletividade”.

“o racismo a que nos opomos não é dirigido contra nós somente, mas foi criado contra o  povo muito antes que qualquer estudante aqui chegasse.”

“Entramos nessa luta, não para defender alguns restritos interesses pessoais, mas porque revolta-nos assistir impassíveis uma minoria esclerosada ocupar todos os postos de mando de Santa Rita para, a partir deles, dividir as pessoas entre brancos e negros, operários ou não. Não aceitamos agora, e nem aceitaremos jamais outra hierarquia que não a baseado no mérito. Fora disto todos os homens são iguais”, concluiu o Presidente do D.A.I.  Natel.

Nos momentos finais, o estudante Gerson de Melo, conclamou o povo a assistir a queima de esquife “que representa a mentalidade estagnada das castas que ocupam indevidamente um lugar que pertence historicamente ao povo”.

Versão do Presidente do Clube. Segundo informação colhida pela reportagem junto ao Presidente do Clube Santarritense, “a imputação de racismo é inverídica, pois nenhuma proibição relativa à participação de formandos e convidados de qualquer raça ou credo político, até mesmo subversivos, foi siquer ventilado.”

“Foi pedido apenas que soubessem escolher seus convidados”. Disse ainda o Presidente do Clube que “os verdadeiros motivos da manifestação contra a sociedade, são enigmas, que só poderão ser descobertos e avaliados por uma investigação eficiente, o que já foi providenciado, além de jà  haver, também, pedido abertura de inquérito policial, com o fim de ser apurada a responsabilidade dos autores no pixamento do Clube Santarritense”.

Qualquer sugestão contato@jornalocorreio.com.br

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