Môrro do Esguicho Jorra Sangue!

Editado em 18 de agosto de 1968 Nº  06

Tragédia Abala o Môrro!

No dia 14 dêste, a cidade ficou traumatizada ao se noticiar uma tragédia ocorrido no môrro do Esguinho, por motivos passionais.

De acôrdo com o que  nos disse o Comandante do Destacamento local, Sargento Cyd, sangue aos borbotões esparramou  quando Benedito de Souza, após, atirar em sua amásia, suicidou, talvez apavorado pelo que havia feito, talvez tomado de loucura.

O Sargento Cyd, ao nos relatar, detalhadamente, os antecedentes do eventos, que teve por causa única de ciúme mordido, contou-nos que o suicida e quase assassino era individuo de extrema periculosipade, ex-detento da cadeia local, de onde saiu no dia  18 de agosto de 1967, após comprir pena a que estava condenado. Em março deste ano, Benedito passou a viver maritalmente com Zilma Reginaldo, a qual pouco tempo depois, devido aos maus tratos de que era vítima, decidiu romper a união, embora não o dissesse diretamente ao amante, por medo de represálias de sua parte.

Porém, aos seus parentes sempre dizia que iria para o Rio de Janeiro, onde se esconderia, ficando a salvo de quem lhe era como a espada de  Dâmocles, sempre pondo por um fio sua vida. Benedito, desconfiando de que algo se preparava, e, possivelmente por boatos, chegou a saber o que sua amásia estava planejando.

Quando às vésperas do dia fatal, Zilma lhe disse que iria ao Rio em busca de um filho seu, que lá se achava, começou o primeiro ato da sangrenta cena final.

Dia 14, ás 4:30 da madrugada, aproximadamente, Benedito, já em fase alucinatória, armou-se de uma garrucha, calibre 22 e, em seguida, deu-se o drama: um tiro no crâneo da companheira, que se achava dormindo, outro em sua própria cabeça. Um ferido gravemente e um cadáver no interior de um quarto. O destino não quis a morte de Zilma, já que o projetil teve seu impacto diminuído por sua própria mão, que se encontrava encostada à fronte, onde a bala se alojou. Talvez sonhasse com Benedito,  qual não teve  mesma sorte. A morte o colheu no mesmo instante em que disparou, no ouvido direto, a arma que arrebataria no reino dos vivos.  Consumada a tragédia. Nada mais a fazer por Benedito. Todos os esforços empregados na salvação de Zilma,  infeliz protagonista de uma cena, talvez inédita em nossa cidade. Ocorrência registrada. Vida salva. Morto enterrado. Fecha-se o pano do cotidiano. Despedida do Sargento Cyd, que diz: ‘‘Deus, quando deixará a violência o mundo em que vivemos? ’ ’ E o repórter se afasta, na impossibilidade de tudo transformar…

C.A.

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