O PERIGO DOS REMÉDIOS GUARDADOS

Editado em 13 de julho de 1969, da edição 49

As reações espetaculares e sempre imprevisíveis do organismo infantil constituem fenômeno que to­do pediatra se acostumou a observar. Um fenômeno salutar — seja dito de passagem — que explica gran­de número de sucessos rápidos e contribui para transformar, em pouco tempo, a angústia em alívio, a agitação em serenidade. Que permite comprovar, ve­zes sem contar, o desaparecimento pronto de um pro­cesso febril aparentemente grave, logo após as pri­meiras doses do medicamento.

Na opinião respeitável das senhoras entendidas, o remédio “foi um porrete”, pois dominou, de ime­diato, a “infecção”. Ou melhor: o que se presume teria sido uma infecção, mesmo porque a simples presença do sintoma febre não eqüivale a garantir que existisse um processo dessa natureza.

Tais ocorrências são muito comuns. E como não houve necessidade de administrar toda a quantidade contida no frasco, o medicamento tão comprovadamente eficaz — e, muitas vezes, caro, – – passa a en­riquecer o arsenal dos primeiros socorros, não sem antes se haver colocado no rótulo o lembrete inde­fectível: “remédio para febre”.

A atitude pode ser bem intencionada, a provi­dência econômica, mas nem por isso deixam de exis­tir inconvenientes. O primeiro deles, sobre ser evi­dente, é bastante corriqueiro: todas as vezes que, daí por diante, a criança acusar febre, o remédio “mila­groso” descerá da prateleira, sem que se tenha pro­curado, antes, esclarecer — e só ao pediatra caberá fazê-lo — as origens do distúrbio. Com efeito, por mais que os sintomas apresentados pelo doentinho pareçam coincidir com os da vez anterior, é pruden­te desconfiar das doenças “iguaizinhas”.

Inclusive porque a medicação intempestiva ou inadequada pode retardar o diagnóstico e permitir que a moléstia evolua de maneira atípica.

Outro inconveniente de potencial gravidade resi­de no fato de alguns medicamentos possuírem prazo de validade relativamente curto, o qual não deve ser, de maneira nenhuma, ultrapassado, sob pena de oca­sionar reações de certa gravidade. Essa particularidade nem sempre chega ao conhecimento do leigo.

As bulas nem sempre insistem suficientemente acerca de semelhantes riscos. E como o cartucho po­de ter sido lançado fora, vê-se a família, nessa con­juntura, sem orientação precisa quanto à possibilidade de ultilizar, ou não, o restante do remédio.

De qualquer forma, é sempre de bom aviso não expor a criança aos riscos potenciais que envolve a ingestão de um medicamento que já teve ultrapassa­do o seu prazo de validade. Riscos esses que podem ser, realmente, muito sérios, a exemplo do que ocor­re no caso particular das tetraciclinas.

Entre, os inconvenientes que pode ter o uso imoderado das tetraciclinas, antibióticos dos quais muito se abusa, na criança, figuram os acidentes ori­undos do emprego de preparações fora do prazo de ultilização. Tais acidentes costumam revestir-se de pronunciada gravidade, podendo, inclusive, ser fatais.

Esse é apenas um exemplo, dentre muitos, para demonstrar o cuidado que se deve ter no armazenamen­to de remédios já ultilizados, com vistas a uma even­tual administração futura, maioria das vezes feita sem indicação ou controle do médico. Se o ideal é o re­médio certo para a doença certa, na hora certa, ain­da estamos longe de contar com uma droga que sir­va para a maior parte das doenças. Por mais que a propaganda insista…

Dr. Walter Telles

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