Um Roceiro, Um Balaio e Quatro Frangos

Editado em 28 de setembro de 1969  Nº. 060

Ele vinha da roça, descalço, esmulambado, chapéu esfiado, um velho balaio na esquerda e uma vara apoiada no ombro direito.

No balaio, duas dúzias de ovos. Pendurados na vara, quatro frangos, parei o carro.

– Quer uma carona compadre?

– Ói! Sim siô. ‘brigado…

– Como é? Vai vender na cidade?

– Vou, sim siô… Fazê a feira.

– Quando vale isso tudo?

– Se a gente tirá 12 contos, tá muito bão. Dá pr’á compra um litro de querosene, duas dúzias de botão e três carretéis de linha que a muiê tá querendo, um ´par de chinelo, um chapéu mais mió; uma garrafa  de pinga pr’á afoga as mágoa… E é capaz de sobrar pr’á ajuntá uns cobrinhos e vim todo mundo ao cinema num desses dias de festa.

– E lá em casa, que vocês comem compadre?

– Ah, tem abobrinha, angu, feijão, arroz…

– E leite?

– As crianças não gostam, não siô.

– Devia ensinar a elas a gostar do leite, que é um alimento muito completo, viu?

– Sim siô. Mas tá difícil. O douto também mandou que elas comessem tomate, alface, berinjela, quiabo, cenoura… É um sacrifício. Elas aprontam um berreiro e a muiê fala que os meninos não são filhos de  japonês.- Compadre, o doutor está certo. Você tem que dar um jeito na patroa e nas crianças. Elas vão adoecer,  se não comerem verdura. Você planta sempre uns canteiros no quintal?

– Tou desanimando. As galinhas ciscam tudo e depois dá formiga que nem sei… Nossa Senhora!

Uai! Faça um cercado de taquara para os frangos. Formiga, também tem jeito fácil. Vai na ACAR, no prédio da Prefeitura, que o pessoal lá é muito amigo e vai-lhe dizer o que tem o que fazer. Agora vem o tempo das águas e está na horinha de plantar umas coisas boas no quintal. Precisa alimentar bem seus filhos. Arroz, feijão e farinha só… não faz criança ficar forte. Você acaba gostando mais em remédio que em comida.

– Eu sei. Acho que vou dar um jeito.

– É isso mesmo. Escuta aí, vocês tem muitas galinhas?

– Tem, sim siô. Galinha e frango. Mas a gente tem é pr’á  vende. A gente só mata frango é numa festa ou quando tem visita…

É… compadre! Enquanto as visitas engordam, seus filhos vão ficando pele e osso. E depois, essa história de vender frango para comprar pinga, não sei não…

– Doutô, pode-me parar aí no mercado… me faz favor?

– Paro, sim. Mas olhe aí, meu amigo, trate de alimentar melhor seus filhos e também você. Precisa ensinar às crianças que o leite as faz ficar fortes,  Mande à patroa que invente modos de apresentar as verduras gostosas, fale também para ela que frango, duas vezes por semana, não dá dor de barriga a ninguém. Bom, eu acho que todo dia devia haver uns nacos de carne na comida para vocês ter coragem de  trabalhar e as crianças estudarem direitinho na escola. – Tá certo, douto. E … ‘brigadinho pela carona e  pelo bom papo. Vou tomar providências já. A pinga,  não compro desta vez…

E lá foi o roceiro com seu balaio e seus frangos, misturando-se no borborinho do mercado, remoendo nossa conversa.

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