Vazio… Segredo . . . Cochicho . . . Falo . . .

Editado em 25 de dezembro de 1969 na edição de nº 71

Como seria injusta se agora não segredasse em teus ouvidos, minha cidade, o quanto te amou o fi­lho querido que, na manhã do dia 14 deste, partiu!

Como seria injusta se não cochichasse bem bai­xinha e imensa, inenarrável quantidade de “Querer Bem” guardada naquele coração amigo!

Como seria injusta se não falasse aos meus con­terrâneos sobre o santarritense amoroso e devotado, que foi o meu saudoso irmão !

Segredando .. .  cochichando . ..  falando . , . externo o seu cântico de louvor a esta terra berço, na beleza de seu panorama, nos feitos dos filhos ilustres e no caminhar do progresso que acompa­nhava de perto.

No “O Correio“, irmão caçula do “Correio do Sul”, semanário tão lido e relido por ele, na avidez peculiar de um filho distante, vai a minha.

Mensagem, tradução de seu Recado.

Santa Rita, Anézio sabia te amar – evocando distância. O tempo de garoto, pequeno coroinha, incensando o altar da padroeira, nas mis­sas e novenas ao lado do Mons. Calazans; sabia te querer – trazendo para bem perto “Grupo Es­colar Dr, Delfim Moreira”, cenário de seus primeiros passos de escolar, res­saltando Zéca Raposo e D. Henrique-tinha. – Amando sobremaneira D. Zica Viana, em meio a uma plêiade de pro­fessores primários.

Sabia te honrar, trabalhando fora de teu âmbito, lutando com retidão, caráter e sensatez de um santarritense digno de sua cidade;

Sabia te glorificar – orgulhando-se de ti, em toda e qualquer época, procurando manter a “Ordem e Progresso”, tão procla­mado pelo Tenente Anibal, no co­mando do Tiro de Guerra; sabia te amar – na lembrança do Instituto Moderno de Educação e Ensino, sob a visão calma e serena de um pequeno mestre de grandeza tamanha, que soube imprimir em seu aluno, qualidades para vencer -Professor Castillo,

Com a mesma intensidade que admirava a figu­ra escultural de Jesus, emoldurando o Corcovado, sentia-se feliz na simplicidade de nossa modesta Ma­triz e na singeleza da Cruz de Cristo, erguida no morro da paineira.

Viveu dias, meses e anos, sentindo a estranha beleza da Guanabara, o mar imenso a se perder de vista, no azulado de suas águas, não se esquecendo, porém, do Sapucaí abaixo, com suas águas morenas, sob a sombra dos chorões, num cismar contemplativo.

“O meu passado é aqui, eu quero relembrá-lo. No seio deste rio e ao canto que ele   entoa.

Hoje eu o vejo em todos os cantos, como parte integrante desta terra tão sua.

Não subiu ele, como desejava, o morrinho do cemitério, não descansou em seu seio a cabeça já meio prateada, não recebeu o calor do solo santarri­tense.

Por que sua esposa não quis?

Seus filhos, seus irmãos?

não!

Um rude golpe caiu, cruelmente, sobre nós to­lhendo a nossa vontade, embotando o nosso pensamento

Melhor ainda, porque Deus nos levou tão depres­sa, nos arrebateu tão rápido, permitindo, apenas, que chorássemos a sua perda.

Havia em seu rosto um sorriso.

Sorriso – gozando da beleza, da alegria, do amor de Deus; Sorriso-iluminando a face tão fria em meio àquelas flores vermelhas.

Sorriso – que se ele pudesse diria:

Ê para você, querida esposa; É para você, amados filhos; É para você, veneranda mãe para vocês, meus familiares, meus amigos Minha Santa Rita, cidade que tanto amei. Segredei Cochichei . . .  Falei . . .

Tudo vazio!

Dezembro de 1969

Ordalina

 

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